A Fundação

No começo do século XIX, o Vale do Paranapanema, ainda uma inóspita região, passou a ser visto como um dos caminhos em direção ao Paraguai, ficando conhecido como Estrada do Peabiru, principal rota leste-oeste na penetração do continente. A Estrada do Peabiru, aliás, serviu de estímulo para se adentrar na região, a fim de se estabelecerem núcleos de povoamento. O ponto de partida das bandeiras era quase sempre Sorocaba, a mais avançada das cidades, base para impulso às penetrações e às minas do Mato Grosso. Conhecida como "boca do sertão", a região atraiu aventureiros, viajantes e caçadores de índios, os quais paulatinamente vasculharam as terras habitadas por índios das famílias dos caiu ás e botocudos. Houve diversos conflitos com os nativos e a ambição por minerais de valor não se confirmou. A maior riqueza era a fertilidade da terra, garantida pela irrigação do Vale do Paranapanema.
 

 

Augusto Esteves, Sonho do Major, óleo sobre tela, 1961

     
 

Posseiros liderados por José Theo­doro de Souza e Tito Corrêa de Mello, nessa época, abriam o mato com seus facões e pisavam no solo do que seria a futura Avaré. Conquistaram as terras exterminando os índios que ainda habitavam o local e buscavam atrair moradores para aquelas terras férteis.

Foi Tito, provavelmente, quem cha­mou parentes e amigos para tomar posse daquelas terras. Na primeira comitiva chegaram os tropeiros major Vitorianno de Souza Rocha e o alferes Domiciano José de Santana, procedentes da região próxima da Serra da Mantiqueira, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo.

Logo depois, atraídos pela possibili­dade de obter amplas colheitas com terras de boa qualidade e água em abundância, vieram para o vale outras famílias lideradas pelos posseiros José Antônio do Amaral, Generoso Teixeira, Antônio Bento Alves, Jacinto Gomes de Morais, Dionísio José Franco, Francelino de Melo e João Antô­nio de Souza.

Primeiro líder do lugar, Vitoriano teve o seu sonho de pioneiro contado em versos pelo poeta Djalma Noronha, autor também do hino da atual cidade de Avaré, escolhido em 1961.
 

 
 

 
     
 

UM CRUZEIRO Antes Da CAPELA

Chamada de Patrimônio de Nossa Senhora das Dores do Rio Novo nos seus primórdios, Avaré viu as primeiras manifestações religiosas em meados do século XIX, segundo os relatos do cronista Jango Pires, o primeiro historiador avareense. Segundo ele, no ano de 1862, uma cruz, coberta com taquara e folha de indaiá, foi levantada no meio da atual Praça Juca Novaes.

''Aí se rezava aos domingos de mês o terço por um 'capelão', título que era dado ao homem que zelava pelo templo improvisado. Após a reza havia leilão de pequenas prendas e o produto era guar­dado, destinando-se para a construção da futura capela", revelou Jango, baseando-se no testemunho de um simpático imigrante italiano, o coronel José Magaldi, e também em informações que circula­vam entre os fundadores do povoado. O mesmo coronel revelou o que fazia na mocidade: "Depois que construíram a capela, eu e meus companheiros íamos fazer nossas pagodeiras na Santa Cruz abandonada. Era lá que íamos rir à noite".

Bem a propósito, aliás, ficou a rima de Djalma Noronha nos versos do hino dedicado à "urbe tão bela", que melodiosamente animam o imaginário do avareense em torno do ambiente de seus bravos antepassados: "Terra amável de um povo bondoso foi teu marco uma humilde capela".

O povoado do Rio Novo surgiu, à luz da fé cristã, ao redor de uma capela votiva, fruto da de­voção de um sertanista a Nossa Senhora das Dores. O fato ganhou versões e foi romantizado a ponto de algumas versões lendárias dificultarem, hoje, a compreensão clara da sua formação histórica.

 
 

 

 
 

A Antiga Matriz de Nossa Senhora das Dores, 1902

 
     
 

Jango Pires anota ter sido construída, em 1864, a então Capela do Major, "de pau-a-pique, barrotes e barreada, coberta de telha vã", no local onde fica hoje exatamente a entrada principal ou porta da frente do Santuário de Nossa Senhora das Dores. A capela media 60 palmos em quadra, ou seja, cerca de 17 metros quadrados. Foi essa a primeira igreja do lugar.

Contudo, pesquisas feitas pelo arcebispo emérito de Botucatu, d. Vicente Marchetti Zioni, extraídas dos arquivos do Arcebispado, mencionam outra data para a construção dessa capela: 28 de maio de 1861. Registra­se também que, a 10 de julho, a humilde ermida teria sido inaugurada solenemente com a reza da primeira missa pelo vigário de Botucatu.

"Costuma-se dizer que foi celebrante o padre Joaquim Gonçalves Pacheco. Porém, é preciso retificar esse dado, visto como desde 1850 o referido sacerdote já não era mais vigário de Botucatu. Consta que a partir de então, todos os domingos, à noite, reuniam-se ao redor da praça ou na capela os poucos moradores do lugar, em número de 83, para a reza das ladainhas de Nossa Senhora, que o major Vitorianno piedosamente presidia.

Em seguida, em torno de uma fogueira, o Chico Biriba, ágil no violão, tocava e cantava cantigas ser­tanejas tão do gosto daquela gente simples, sob os aplausos dos circunstantes. Por último, o major distribuía quentão de pinga do seu engenho, servido em tigelinhas", relata d. Zioni.

Em 1867, uma Junta Administrativa foi nomeada pelo vigário de Botucatu para cuidar dos bens da Capela de Nessa Senhora das Dores. Compuse­ram essa junta três influentes personalidades de outrora:

Manoel Marcellino de Souza Franco, o primeiro professor do povoado, mais conhecido pelo apelido de Maneco Dionísio, e os imigrantes José Magaldi e Antônio Bento Alves. A 13 de janeiro de 1869, com a instauração do processo canônico para a constituição definitiva do Patrimônio de Nossa Senhora das Dores na Câmara Eclesiástica de São Paulo, o major Vitorianno e demais doadores foram intimados a prestar depoimentos de praxe a respeito da doação das glebas de terras que originariam a futura cidade.

"Nessa data, o major Vitorianno de Souza Rocha declarou ter a idade de 83 anos e ter nascido em Bragança; sua esposa, d. Gertrudes Cardoso de Oliveira, declarou estar com 73 anos e ser natural de Bragança; Domiciano José de Santana declarou-se com 73 anos de idade e natural de Mogi das Cruzes, e sua esposa, d. Gertrudes Maria da Luz, declarou estar com 63 anos e ser natural de Mogi Mirim", registra d. Zioni. O arcebispo retirou os dados dos autos originais do processo conservado no arqui­vo da Cúria Metropolitana de Botucatu.

Conforme era costume no regime de união entre a Igreja e o Estado, a Lei Provincial n2 63, publicada a 7 de abril de 1870, transformou o Distrito Policial do Rio Novo em Freguesia Civil ou Distrito de Paz.

É importante sublinhar a considerável contribuição à preservação da memória avareense ofere­cida pelos saudosos pesquisadores João Baptista do Amaral Pires (Jango), Paschoal BoccÍ e José Pires Carvalho. Atualmente, esse trabalho tem continuidade graças às valiosas pesquisas de Flora Bocci, José Leandro Franzolin, Lina Brandi, Joaquim egrão e Gilberto Fernando Tenor.

 
     
 

DE CAPELA A MUNICÍPIO

Da formação de uma capela ao estabelecimento de um município existe um percurso de denominações. Entenda melhor quais são e o que significam:

Capela: pequeno templo fundado pelos nobres ou se­nhores nas terras de sua pro­priedade, geralmente ao lado de sua casa. Convertia-se muitas vezes em paróquia, formando uma vila.
Freguesia: sede de uma igreja paroquial que servia Ira a administração civil. Era a categoria oficial a que era elevado um povoado quando nele havia uma pela administrada por um pároco mantido à custa dos moradores, que lhe pagavam um valor anual para sustento.

Vila: unidade político-administrativa autônoma equivalente a município, trazida de Portugal para o Brasil I início da colonização, tendo perdurado até fins do século XIX; toda vila deveria possuir Câmara e cadeia, além de um pelourinho - símbolo da autonomia; termo empregado em substituição a município, pois este podia ser empregado na colônia, ou seja, em terras não emancipadas.

Termo: território da vila, cujos limites são imprecisos; tinha sua sede nas vilas ou cidades respectivas; era dividido em freguesias, limite, raia ou marco divisório, que extrema uma área circunscrita.

Cidade: título honorífico concedido, até a Proclamação da República, pela Casa Imperial a vilas e municípios, sem nada acrescentar à sua autonomia; a partir da Constituição de 1891, esse poder foi delegado aos Estados, que podem tornar cidade toda e qualquer sede de município; nome reconhecido legalmente para as povoações de determinada importância.

Município: divisão administrativa de origem romana, levada pelos romanos para a Península Ibérica, e de Portugal trazida para o Brasil; equivalente a vila; menor unidade territorial político-administrativa autônoma; entre os romanos, cidade que possuía o direito de se administrar e governar por suas próprias leis; no Brasil passou a substituir definitivamente o termo vila a partir da República, tendo aparecido pela primeira vez na legislação por meio da Carta Régia de 29/10/1700.
 

 
 




 
     
 

Fonte: Conto, canto e encanto com a minha história - Avaré Terra do Verde, da Água e do Sol