Avaré - Uma Represa Tamanho Família

 
 
 

 
 

 

 
 

 
 

O charme country aliado ao lazer náutico que proporcionam as doces águas de Jurumirim, uma represa que não faz onda
por Gilberto Ungaretti.

Fotos Marcos Blau

 
 

 

 
 

 
 

NUMA FELIZ COMBINAÇÃO DE PRAIA E CAMPO, AVARÉ É FÉRTIL EM OPÇÕES DE LAZER E ESPORTE

Aberta a temporada de férias. o turista se debruça sobre os itinerários. Mar ou campo? A beleza ainda primitiva das praias do Nordeste ou o ambiente bucólico de uma fazenda? Um alentado e crescente grupo de paulistas encontrou uma saída intermediária. Atraídos por uma incrível mistura de praia e campo,eles estão se estabelecendo em Avaré, município a 270 quilômetros de São Paulo que, desde a formação da represa de Jurumirim, nos anos 60, passou a oferecer um roteiro completo para toda a família. Ali  em magníficas casas de frente  para a represa, onde chegar de helicóptero tornou-se cena trivial, eles vivem um singular e híbrido dia-a-dia, no qual pela manhã podem andar a cavalo ou recolher os Ovos no galinheiro mantido no quintal e no final da tarde contemplar o pôr-do-sol sentado num píer construído em frente de casa.

"É o lugar perfeito para vir com a família", define o consultor financeiro Ricardo Magalhães Ruiz, 44 anos, um dos freqüenta­dores certos de Avaré nos fins de semana ensolarados, ao lado da mulher, Deborah, e dos três filhos, Rodrigo, de 12 anos, Nathalie, de 10 e Larissa, de 6. Ricardo, que era velejador no litoral paulista e chegou até a participar da regata Salvador-Rio de Janeiro, descobriu a emoção de viver  singrando as doces águas da Jurumirim há 9 anos, quando hospedou-se no Berro D·Água, um dos três hotéis com estrutura náutica estabelecidos á "beira-mar". Não resistiu. Em questão de meses. começou a edificar sua própria casa num dos melhores pontos do lugar. E comprou um ski boat de madeira, de 18 pés, com o qual já soma 420 horas de represa, equivalentes a 10.500 milhas náuticas.

"Foi paixão a primeira vista. Quando vi este marzão de água limpa decidi: É aqui mesmo que vou ficar. Avaré é fértil em opções de esporte e lazer. Mistura a emoção dos passeios de barco com cavalgadas e todos os prazeres da vida do campo. Hoje, por exemplo, fui acordado pelo ruído de um cavalo comendo grama embaixo de minha janela"

Não é sem razão que Avaré é também chamada de "Capital do Cavalo" São cerca de 100 haras. uma das maiores concentrações do país. Muitos deles dedicam-se à criação de cavalos de pólo. Com 13 campos para a prática desse esporte, durante a temporada de competições o centro da cidade, a cinco quilômetros da represa, ganha ares britânicos, com cavaleiros tipicamente vestidos exibindo-se pelas ruas.

 
 

 

 
 

 
 

A TERCEIRA ONDA

A viagem sem volta dos antigos freqüentadores do litoral paulista para Avaré começou entre o final dos anos 60 e o início da década seguinte, com a chegada dos pri­meiros desbravadores. E ganhou impulso em meados dos anos 80, quando um grupo de empresários paulistanos começou a edificar respeitáveis casas de frente para o lago. "Agora, está ocorrendo uma terceira onda, com a chegada de famílias do próprio interior paulista, que se cansaram de enfrentar os congestionamentos para chegar ao litoral". Quem explica é Stefan Gerd Richard Weltezer, um indo-alemão que há 12 anos, de passagem pela região, apaixou-se pela represa, tornou-se proprietário de um hotel-fazenda (o Berro D'Água) e agora não troca Avaré por nada. "Nasci na índia e me criei na Alemanha. Mas me fixei aqui porque esse lugar é único. Os europeus ficam loucos com essa maravilha. É lindo e tem sol o ano inteiro. É incrível que os brasileiros ainda não tenham descoberto esse paraíso".

A represa é larga e reta. Propícia para esquiar. Ali, em casarões cinematográficos, mistura de praia e campo, com cavalos pastando no quintal e o barco atracado na porta, chegar de helicóptero tornou-se cena trivial.

 
 

 

 
 

 
 

Mar artificial

A hidrelétrica de Piraju está na ori­gem do fenômeno que transformou Avaré, um município antes ocupado exclusivamente pela pecuária, no porto seguro para os praticantes de esportes náuticos. Jurumirim é resultado da barragem que segurou o rio Paranapanema para formar a usina. Com o fechamento da barra­gem, em 1962, formou-se o lago: as águas foram subindo e cobrindo a parte baixa de 19 municípios, até se transformar num mar de 100 quilômetros de extensão.

A hidrelétrica não gera muita ener­gia. Em volume de água, no entan­to, é uma das maiores do país. Perde para Itaipu, no Paraná. Em compensação, tem muitas vantagens sobre a rival. Em Itaipu há muitos tocos e árvores submersas, o que faz da navegação uma aventura sujeita a acidentes. Em Avaré, esses proble­mas também existem, mas em pro­porções limitadas. Afinal, a represa foi formada sobre antigos pastos e vales. Além disso, suas águas são calmas e quase transparentes.

O lago é artificial, mas a natureza caprichou ao criar cachoeiras e encostas pedregosas. Os pontões flutuantes também fazem parte da paisagem da represa, um lugar rico em opções de lazer e esporte, perfeito para se ir com toda a família. É contemplado esse cenário que Mário Manzoli treina provas de wakeboard.

O LAGO É ARTIFICIAL MAS A NATUREZA CAPRICHOU AO CRIAR CACHOEIRAS E ENCOSTAS PEDREGOSAS. OS PONTÕES FLUTUANTES TAMBÉM FAZEM PARTE DA PAISAGEM DA REPRESA, UM LUGAR RICO EM OPÇÕES DE LAZER E ESPORTE, PERFEITO PARA SE IR COM TODA A FAMÍLIA. É CONTEMPLANDO ESSE CENÁRIO QUE MÁRIO MANZOLI TREINA PARA PROVAS DE WAKEBOARD

 
 

 

 
 

 
 

Um pé na terra outro na água - Outro fator atrativo é o clima de amizade que predomina na região. Apesar de a maior parte dos veranistas ser originária da capital de São Paulo ao chegarem lá os paulistanos parecem que incorporam o espírito interiorano. Avaré ("fazer amigos", ou "vento forte", em tupi­guarani) é espontânea, divertida e não se permite reproduzir o pedante sotaque dos novos-ricos que apartaram em badalados balneários náuticos. "Aqui, a rotina é visitar a casa dos amigos. bebericar, passear de lancha e tomar banho de sol, conta Deborah Ruiz, definindo o estado de espírito ali reinante.

Com localização privilegiada - de carro. fica a três horas de São Paulo, com acesso pela rodovia Castelo Branco - essa maravilha artificial, a única de São Paulo absolutamente sem poluição, foi aos poucos se transformando em estância turística.

Cerca de 1/3 das margens da represa está ocupada com um misto de casa de campo e mar. São perto de 2.000 residências, dos mais variados padrões. Todas com uma rampa para o barco na porta, várias com píer. Algumas têm até heliponto, como as da "Ilha João Camargo e Pedro Mellão". Essas mansões, quase sempre cinematográficas, com meia dúzia de quartos, piscina e quadra de tênis, chegam a ser aluga das na temporada por R$ 600 ao dia.

Os casarões ficam em terrenos medidos em alqueires, o que resulta na formação vários sítios, repletos de verde, onde o leite pode ser tirado da vaca criada no quintal e os ingredientes da salada repousam na horta cultivada ali do lado.

O empresário Miguel Fay, 46 anos, um dos desbravadores das Jurumirim, mantém no fundo de sua "chácara náutica" uma vistosa criação de gansos, patos e marrecos - e um pomar de fazer inveja a muitos fruticultores. Barcos, porém, são sua paixão. "Nasci dentro de uma lancha, na represa de Guarapi­ranga." jura. Em Avaré, ele chegou em 1973, trazendo na bagagem, além de sua inseparável lancha de passeio, três velhos barcos de competição - lembrança dos velhos tempos de Guarapiranga. Desde então, inicialmente junto aos pais, e agora ao lado da mulher, Ana Laura, e da filha Luiza, de 2 anos, Miguel pode ser visto todo fim de semana em Avaré, faça chuva ou faça sol. "Se não tivesse encontrado esse lugar, já estaria morto. Ou louco", diz, referindo-se a seu estressante dia-a-dia numa metrópole do concreto e do asfalto, como São Paulo.

MARAVILHA ARTIFICIAL FORMADA PELA BARRAGEM DE PIRAJU, A REPRESA É A ÚNICA ABSOLUTAMENTE SEM POLUIÇÃO

 
 

 

 
 

 
 

CENÁRIO HOLLYWOODIANO, EM SEUS PONTOS MAIS NOBRES A REPRESA ABRIGA CASAS DE R$ 1,5 MILHÃO

Motor de Cadilac - Com 3.000 horas de navegação apontados no velocímetro do barco . Miguel conhece a Jurumirim como poucos. Ele e o amigo Ricardo Ruiz, famílias inteiras a bordo, costumam sair explorando cada braço da represa. Desses cruzeiros exclusivos resultam descobertas como ilhas virgens, praias selvagens, escorredeiras e cachoeiras primitivas. que eles vão mapeando apenas na memória. ·Até hoje a gente se surpreende. Outro dia. desliguei o motor para dar um mergulho e, de repente. comecei a ouvir um ruído de queda d'água. Era uma cachoeira ainda inédita. Foi uma descoberta fantástica" .

As ilhas formadas pela represa foram transformadas em reserva natural. Na "praia Vermelha, referência a um paredão da mesma cor existente em sua costa, são comuns rastros de onças e jaguatiricas. Tudo ali é imaculadamente limpo. Há também as fazendas nas quais, desde o lago, pode-se ver peões rudes, laço firme, braço forte, apartando boiadas. Cenário insólito. Vários roteiros em um só. Difícil encontrar no mundo um ponto de comparação. Em compensação. a represa remete os visitantes a lugares esplêndidos. Em umas de suas costas, por exemplo, um fiorde de pedras. as chamadas "cocô de crocodi­lo", é puro Paraty. Em outro ponto, uma praia de areias brancas é quase a reprodução fiel do primitivo litoral do Nordeste - só estão faltando as palmeiras.

Em meio a esse cenário exuberante, é intensa a presença de gente que pratica windsurf, esqui aquático e esportes náuticos de vela. Ou simplesmente daqueles que preferem passear de lancha. A maior parte dos barcos que singram na Jurumirim tem entre 18 e 23 pés. Entre eles, algumas raridades. Como uma Cris Craft 20 fabricada nos anos 50. Pertencente ao empresário Oscar Ferro, o barco está equipado com pára-brisa de cristal e motor de Cadilac com reversor hidráulico. Lindo, capaz de despertar a cobiça de qualquer colecionador. Outra jóia rara é a lancha Max 19, ano 1970, do comerciante de automóveis José Gorga Neto - o Zezé. Meus amigos viviam me gozando, porque o barco era velho e feio, com sua cor de cenoura original. "Vende essa coisa'. me diziam. Eu respondia que não. Que um neto meu ainda iria andar nele. Hoje. tenho dois netos - e um terceiro a caminho. E reformei o barco para passear com eles. Veja essa pintura em azul e branco. Ficou maravilhoso".

 
 

 

 
 

 
 

ANGRA  DOS PAULISTAS
 

Cenário de cinema, a represa acabou atraindo a atenção dos produ­tores da Rede Globo. Ali, foram gravadas várias cenas da novela O Amor Está no Ar e da minissérie Boca do Lixo. O ator Rodrigo Santoro, personagem central da pri­meira trama, gostou tanto do lugar que, terminada a novela, passou a freqüentar a Avaré apenas pelo pra­zer de estar em contato com uma paisagem cenográfica natural, como aquela.

Para quem quiser se estabelecer, uma boa propriedade com vista para o lago custa, em média, 300 mil reais. Mas nos loteamentos mais nobres, como o Ilha Verde, algumas casas chegam a ser avaliadas em 1,5 milhão de reais. "Avaré a Angra dos Reis do paulistas. Só que mais chique", provoca o financista Sebastião Ferreiro, vizinho do em­presário Eugênio Staub e do ex­banqueiro Léo Cochrane Jr. A frase é dita quando Sebastião está atra­cando sua lancha Magnum 23 no mais belo pontão da represa, construído em madeira na frente de sua casa.

O PURO-SANGUE DE RICARDO RUIZ E AS LANCHAS DE MIGUEL FAY, DOIS DOS DESBRAVADORES DA REPRESA, PRODUZEM UM CENÁRIO INSÓLITO CONTRASTE DE PRAIA E CAMPO, QUE O PRATICANTE DE WINDSURF TESTEMUNHA SOLITARIAMENTE, BONS HOTÉIS, COMO O BERRO D’ÁGUA, OFERECEM ATRAÇÕES COMO A CAMA ELÁSTICA E PASSEIOS DE JET SKI

 
 

 

 
 

 
 

O BELO VISUAL DA REPRESA REMETE A LUGARES EXUBERANTES. COMO ESTA PRAIA PRIMITIVA, QUE PERMITE A COMUNHÃO COM A NATUREZA DESDE A MAIS TENRA IDADE. É QUASE A REPRODUÇÃO FIEL DO LITORAL NORDESTINO – SÓ ESTÃO FALTANDO AS PALMEIRAS. ALI AO LADO, PARA QUEM GOSTA DE ATRAÇÕES CRIADAS PELO HOMEM, CASAS MERGULHADAS NA NATUREZA COM TODO O LUXO QUE O DINHEIRO PODE COMPRAR

 
 

 

 
 

 
 

SOFISTICAÇÃO À PARTE, O PROGRAMA PREFERIDO É PROSEAR E BEBER COM OS AMIGOS

 

Pedacinho de areia - A motivação de Zezé para ancorar na Jurumirim. aliás. é ilustrativa sobre o modo de ser do veranista avareense. Ajuda a explicar o fascínio que o lugar exerce sobre os visitantes oriundos de outros balneários. "Tudo o que eu tinha no Guarujá era um pedacinho de areia, onde banhistas mal-educados jogavam lixo. Aqui, além de estar livre das chatices típicas das férias, como congestionamentos, bares lotados e cachorros na areia. tenho uma praia particular e um mundo de água para explorar. Além disso, não preciso de marina: atraco o barco na porta de casa".

Junto com os passeios de lancha. o esporte predileto de Zezé é bater papo. Ele tem uma capacidade gregária de fazer amigos. Já os seus filhos preferem andar de barco, esquiar ou, saindo da água para o campo, praticar motocross. Entre os hóspedes constantes de Zezé está Mário Manzoli, esportista cuja maior paixão é a prática de wakeboard - uma llÚstura surf e skate puxado por uma lancha. "Sempre que posso, dou um jeito de vir para cá. Avaré é um lugar ótimo para se treinar". Sua estratégia, ao que parece, tem sido certeira. Em setembro passado, Manzoli disputou o campeonato latino-americano de kakeboard. na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Ao final da última prova. comemorou um honroso 6º lugar.

A procura por tudo o que é produto náutico também faz de Avaré um lugar de boa qualidade até para projetos empresariais. Com sede na cidade. o estaleiro Magnum é o líder em vendas de lanchas na região. As concessionárias de jet-skis também fazem a festa na represa. Para se ter uma idéia da força desse mercado, basta lembrar que revendedor See-Doo em Avaré é o terceiro em vendas da marca em todo o estado de São Paulo.

"Estamos a procura de empresários que queiram investir na região em parceria com a Prefeitura", avisa o secretário de Turismo de Avaré. Jota Cruz. Entre outros empreendimentos, Jurumirirn ainda está ã espera de um grande centro náutico.

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Como chegar

De carro, a partir de São Paulo, pela rodovia Castelo Branco (SP 280). O acesso é no km 241­B da Castelo Branco, pela rodovia João Mellão. A viagem dura cerca de três horas.

Onde ficar Hotéis

A represa conta com dois hotéis providos de marina e de toda estrutura para estadia de barcos - o Península (014-721.1844), com 40 apartamentos e nove chalés, e o Berro D'Água, com 50 chalés. Ambos, ficam às margens da Jurumirim, com acesso a partir do quilômetro

268 da João Mellão- rodovia a que se tem acesso, vindo de São Paulo, na saída 241-B da Castelo Branco. Há um terceiro hotel na "beira-mar", o Grande Lago (014-758.6240), com 27 apartamentos. Suas estrutura náutica, no entanto, limita-se a uma rampa de acesso à represa. Berro D'Água - (014) 722.4577 / 722.4995: Com bar, restaurante, piscina, praia particular, quadras de tênis e vôlei, um conjunto de atividades para as crianças e um sitio de 53 alqueires onde os hóspedes podem andar a cavalo mergulhando na ecologia, o Berro D'Água é um autêntico resort. Na água, as atrações são os passeios gratuitos de caiaque e pedalinho e a agitação numa divertida cama elástica. Além disso, o hotel aluga lanchas e jet-skis a preços razoáveis. E para quem quiser

levar o próprio barco, o Berro D'Água dispõe de uma rampa de acesso à represa e de todos os serviços típicos de uma marina, incluindo a venda de gasolina. Diária para casal, com pensão completa: de R$ 125,00 a R$ 156,00. Na alta estação, pacote de uma semana para casal, com pensão completa: R$1.400,00.

Camping

Toda sofisticação do lugar, no entanto, não impede o acesso de turistas com menor poder de fogo. A 18 km do perímetro urbarno de Avaré, o Camping Municipal 014-758.6240 destaca-se como a opção mais barata de hospedagem. s Aceita barracas ou trailers e, para quem tem barco ou outro tipo de embarcação, oferece uma rampa de acesso à represa.

 
     
 

Fonte: OffShore